terça-feira, 10 de maio de 2011

“DEEP BLUE”

Quando tentei o sonho por um instante ainda
Acordei da noite no calor sufocante dos fatos.
Quando calei minha alegria e ouvi gritos abafados,
Percebi que promessas feitas tinham perdido o sentido.

Quando deixei meus passos bem ao alcance dos seus,
Não achei estradas que nos levassem ao ontem.
Quando perguntei como chegamos a tal ponto,
Ouvi você dizer que nem tudo é como se quer.

Posto que o amor que sentia por mim agora é passado.

Quando busquei anestésicos contra minha angústia,
Senti na pele últimos suspiros de doente terminal.
Quando lembrei que depositei em você minhas esperanças,
Lembrei que ninguém descobre um santo para cobrir outro.

Quando vi quão profunda era a depressão que lhe causava,
Percebi que meu tormento era barco em mar tranqüilo.
Quando procurei a chuva para esconder minhas lágrimas
Lembrei que homem não chora, mas já era tarde, tarde demais.

Posto que o amor que sentia por mim nunca existiu.

CAFÉ DO BRASIL

Esta é a sua vida, veja o filme, leia o livro e compre o disco, tudo mais é sonho. Um emaranhado de planos frustrados, andares não alcançados, palavras reprimidas pelo medo de ser tudo possível, medo do que a mudança possa trazer consigo. ACORDA, toma seu café, coma seu pão, beija sua esposa, diga adeus aos seus filhos, espera no ponto, logo seu ônibus vem. ENTRA, obedeça a fila, procura um lugar vazio, horário de pique, trinta e seis sentados, o resto em pé, dê o sinal, desça no ponto, desamassa sua roupa. SENTA, ajeita sua mesa, diga bom dia ao seu chefe, veja o que está em pauta, mostra disposição para o serviço mesmo sabendo ser difícil pisar um degrau mais acima. LEVANTA, fecha gavetas, apaga as luzes, missão cumprida, passa no bar, joga conversa fora, fala das desgraças de cada um, saia na hora, volta pelo mesmo caminho que veio. CHEGA, abra a porta, família jantando em frente da televisão, coma algo requentado e lá pelas tantas, quando as crianças dormirem, faça amor com sua esposa, vira para o lado, pensa no seu dia, DURMA. Esta é a sua vida, ao vivo e em cores ao seu dispor, tudo mais é nada. Afinal, esta é a sua vida, com dos os is que se tem direito, com todos as vírgulas, os travessões, com todas as reticências no ar e um ponto final. Esta é a sua vida, não é mesmo?

DANÇANDO COM A MORTE NA RUA DO MENINO COM OLHAR DESCONCERTANTE

Morri três vezes antes de morrer realmente:
Quando subi ao palco pela primeira vez
Porque alguém disse que eu tinha talento
E nisso acreditei;
Quando a mais longa das guerras terminou
E uma suja medalha pelo sangue e circo
No peito coloquei;
E quando procurei o seu olhar desconcertante,
Que me inspirou por toda minha vida
E ele tinha para mim diminuído o encanto.

Depois, morrer de morte morrida,
Foi dos destinos o que melhor me aliviou.

E então entendi o amargo nas palavras
E o olhar distante dos sobreviventes,
Posto que, ao saber do Leste vindo veloz
No retrovisor da minha carruagem,
Em breve eu deixaria de ser o último deles.

TÃO PERTO, TÃO DISTANTE

Tão perto e
Tão distante
Eu do meu equilíbrio.

Muros altos,
Palavras vazias,
Meia-noite e meia
Tão cedo e já tão tarde.

Tudo de errado
Com o esperado
Sete mares navegados
E a morte na praia.

Tão perto e
Tão distante
Eu de minha serenidade.

Cores estranhas, essas
Nos teus olhos
Parecem uma outra versão
Das lágrimas nos meus.

CONTOS DO LIVRO FINALISTA NACIONAL - PREMIO SESC 2010 - CATEGORIAS CONTOS 2010: PARA SEMPRE NOS CAMPOS DE MORANGO OU SEGUNDO INVERNO

alguns textos bacanas esperos que gostem

ELLA FITZGERALD E UM DIA VERDE

Ela abriu a porta. Ele entrou. Ela fechou a porta. Ele esperou. Ela lhe tocou o rosto. Ele gelou. Ela entendeu. Ele sorriu. Ela tinha trinta. Ele dezesseis. Era pecado. Era errado. Era isso. Era aquilo. Ela queria. E ele então!
Ela teve medo de seguir. Ele temia não ser verdade. Ela continuou. Ele deixou. Ela pôs Ella Fitzgerald. Ele preferia Green Day. Ela dançou para ele. Ele a acompanhou com o olhar. Ela lhe beijou a boca. Ele viajou. Ela era fogo por dentro. Ele tremia de emoção. Ela sabia o que fazer. Ele se deixou levar. Ela abriu o sinal. Ele avançou. Era desejo. Era necessidade. Era sonho. Era realidade. Ela estava ali. Ele também.

E então aconteceu.

Ela abriu a porta. Ele saiu. Ela disse adeus. Ele sorriu. Ela lhe puxou pelo braço. Ele voltou. Ela lhe beijou a boca. Ele se entregou. Ela agora tinha dezesseis. Ele bem mais que isso. Ela tinha mudado. Ele estava nas nuvens. Era estranho. Era normal. Era devasso. Era divino. Ela o queria. Ele a teve.
E então se despediram no portão da casa dela, em meio a uma chuva fina que despretensiosamente caia.
Ele correu feito um louco, comemorando na chuva. Ela sorriu da situação, tanto que só pensaria nas consequências de tudo que houve depois. Bem depois.

MICAEL LIMPO

Único registro na última página do diário de Micael, encontrado por sua mãe sobre a cama dele, entre algumas revistas em quadrinhos, fotografias dele entre amigos - algumas delas contendo em seus versos trechos em inglês de um poema de Edgar Allan Poe - e um exemplar bastante danificado, sujo e com algumas páginas faltando de Moby Dick. Curiosamente as páginas anteriores deste mesmo diário estavam todas em branco.
Um passo de cada vez, um dia de cada vez, até voltar a ficar sóbrio, para quem sabe amanhã, amanhã voltar a viver. É tão difícil assim, meu Deus esse amanhã que nunca chega?
Hoje eu não cheirei, não traguei, não bebi, não comi e não roubei nada de ninguém para satisfazer qualquer necessidade minha. Qualquer vontade desesperada de me manter longe dos meus problemas. Você nem pode imaginar o quanto o dia de hoje me pesou e o quanto ainda me pesa. Hoje eu não matei ninguém, nem ninguém me matou com drogas que me aliviariam da dor de viver, porque eu não deixei. Confesso que nunca pensei que conseguiria menos. Eu estou assim, meio torto, meio tonto e é ainda por causa da visão da realidade. Será mesmo por isto? Não sei.
Hoje eu não furei, não me piquei, não bati, não feri e não quebrei nada de ninguém para compensar qualquer ausência minha. Qualquer medo alucinado de me querer longe dos meus dilemas. Mesmo sabendo que eles ainda rondaram minha casa. E as minhas horas passaram lentas. Ainda estou meio sonolento, será por causas dos remédios de ontem? Hoje também, eu não droguei ninguém e nem ninguém me drogou com remédios que me curariam do mal de querer morrer, porque eu não deixei. Apesar das razões todas e das chances tantas, hoje meu amigo, eu fiquei “limpo” esperando acordado para lhe dizer, com todas as palavras, que hoje a resistência venceu. E nada nem ninguém me impediram de querer vencer. Estranho, pensei que fosse mais difícil. É, pensei.
Hoje foi um dia bom. Eu até olhei para o sol de modo diferente depois de tantos dias no escuro. Ele estava lá como sempre esteve, quente, majestoso e tão perto e tão distante. Aproveitei e me banhei de luz. Nunca pensei que conseguiria sentir prazer em algo tão bobo como a luz do sol. Não pensei que conseguiria. É, hoje foi um dia bom. Eu não ofendi ninguém com minha dor, nem machuquei ninguém dizendo o que restou: esta pessoa aqui a sua frente. Hoje foi assim, um dia simples para um dia de cada vez. Eu vejo o amanhã vindo como chuva ácida sobre mim. Não vem leve. Pesa ainda na consciência os defeitos do ontem. Ainda assim ele vem vindo veloz e dele não posso garantir nada, só que tentarei enfrentá-lo.
Por isso, meu amigo, aceite o fato de eu ter vencido meu inimigo no dia de hoje. É pouco, mas é tudo o que tenho para oferecer. Do amanhã nada se sabe, nada. Você nem imagina o quanto tudo isso me custou e nem o quanto me valeu.
Quando a mãe de Micael terminou a leitura desta página de seu diário, olhou para ele, chorou e depois se deitou ao lado de seu corpo inerte e frio, como só as mães sabem fazer para que seus filhos tenham uma boa noite de sono.