O respeitado e sisudo manual de novecentas páginas, capa de couro, editado pela mais conceituada editora no ramo, e que melhor trata do assunto, declara que sucesso é trabalhar arduamente em prol de um objetivo. Mais à frente, em outro de seus longos capítulos, encerra o assunto afirmando que, depois de todo o sofrimento é preciso se conformar por ter cruzado a tal linha de chegada.
“Ah, foi um choque para todos!”. Esse era o eco entre todos os desavisados.
Ele tinha nome, tempo, talento, endereço, profissão, cultura, instrução, prestígio, catequização, amigos e amores, muitos amores. Tinha sempre a melhor opção, sábia o que queria e tinha o que queria. O que mais alguém poderia querer? O que mais?
“Estamos todos ainda surpresos”. Essa era a voz de todos os seus familiares.
Ele tinha fama, sorte, poder, a vez, a voz, o espaço, decência, beleza, um passado e de presente um futuro mais do que promissor. Criou conceitos e guiou multidões. O sucesso sempre fora sua marca registrada e o mundo vivia aos seus pés. Lutara arduamente para chegar onde estava. Tanto esforço, tanto. De tudo agora só cinzas. Só as cinzas.
O mais caro e, por tabela, o mais vendido livro de autoajuda do momento diz que, felicidade é conseguir o que se quer e depois, sentir-se realizado com tal conquista.
“Ah, não há explicação convincente”. Repetia o coro dos inconformados.
Tudo, tudo mesmo, sempre esteve bem, tudo bem, tanto que, quem morava ao longe nunca entendeu, sequer percebeu que nas vezes que chovia na cidade, chuva e lágrimas se confundia e se perdiam por caminhos solitários.
Bem, talvez tenha no final conseguido o que queria, porque até agora ninguém sabe ao certo por qual razão ele fez o que fez consigo.
“Ah, foi uma pena! Ele vai fazer tanta falta”. Isso era o que mais se ouvia durante a sua partida.
Mas o que ninguém sabia é que às vezes, palavras escritas não calam o silêncio que diz tudo. Não, não calam.
terça-feira, 10 de maio de 2011
NUNCA TENTE BARGANHAR COM A MORTE
Eles estavam sentados lado a lado. Aquele era o lugar mais bonito que ele conhecia. O jardim da casa que um dia fora de sua mãe. Eles estavam ali, sentado à sombra de um flamboyant. Ela calada. Ele pensativo, precisava encontrar uma maneira de vencê-la a qualquer custo. Literalmente aquela era uma situação de vida ou morte para ele. Ela estava ali para cumprir sua missão. Levá-lo.
- OK, vamos jogar? – perguntou ele.
- Se sabe que vai perder por que você quer jogar então? E logo comigo? – respondeu ela sem interesse algum na resposta dele.
- Posso ao menos tentar. – respondeu ele meio desiludido.
- OK, vamos jogar.
Ele animou-se. Viu ali uma chance de ganhar algum tempo. Esse era com certeza o único prêmio que conseguiria caso vencesse.
- Escolha o jogo, eu trago as peças e faço as regras. – Disse ela, lacônica.
- OK, dados.
Então ela tirou de sua bolsa um par de dados comuns. Brancos e com seis faces.
- Você mesmo lança os dados e se a soma desse lançamento obtiver como resultado qualquer valor acima de seis é o vencedor. Caso contrário eu venço. – Ela disse isso, olhou para ele e como este tinha acatado a sua decisão, entregou em suas mãos um par de dados brancos de seis faces.
Ele recebeu os dados e como fazem os jogadores de dados, colocou entre as mãos fechadas, soprou e depois os lançou na grama verde. Estes rolaram pelo chão e pararam a poucos metros deles, em frente ao flamboyant.
Ele viu o resultado do lançamento dos dados. Animou-se. Pensou ter obtido sete, mas quando se aproximou deles, viu que o primeiro dado tinha a face cinco e o outro a face um. Desanimou-se. Então se voltou para ela dominado pela ira no olhar.
- O que foi meu caro? Eu trouxe o jogo que me pediu. Algum problema? Suas chances de ganhar eram boas. Não acha? Em vinte e quatro resultados possíveis, você tinha doze chances de ganhar, a metade das probabilidades. Alguma injustiça?
- Não sei. Houve? Você era a dona dos dados pode ter manipulado o resultado.
- Se assim pensa, escolha outro jogo.
Ele pensou por alguns instantes. Ela não se importava com seu desespero, calada esperava pela próxima opção de jogo. Então ele chegou a uma opção.
- Baralho. Pode ser?
Ela novamente colocou a sua mão dentro de sua bolsa e de lá tirou cartas de baralho. Olhou para ele e disse:
- Jogo mais simples ainda, você terá que completar uma seqüência de cinco cartas seguidas, podendo ser de naipes diferentes. Para não parecer que sou injusta, você terá dez chances de completar sua série de cartas seguidas, isso em um baralho de treze cartas separadas do resto, formando uma seqüência que parte de um às até um reis. Entendeu?
Ele balançou a cabeça em sinal de confirmação. E ela começou então a lançar cartas sobre a grama verde embaixo do flamboyant.
Ela separou do resto do baralho trezes cartas que formavam uma seqüência que iam de um às até um rei. Ele acompanhou a todo esse processo com o olhar atento ao seu movimento. Então pediu a primeira carta. Ela se virou para ele, colocou o baralho na grama verde com suas faces viradas para a grama e então outro jogo começou.
Ela virou a primeira carta, um três de ouros. Ele recebeu a carta e a segurou.
Ela virou a segunda carta, um cinco de paus. Ele recebeu e juntou a primeira carta.
Ela virou mais uma carta, uma dama de espadas. Ele recebeu descontente, sabia que dificilmente conseguiria alguma coisa com essa carta.
Ela virou outra carta, um oito de copas. Ele recebeu a carta, juntou-as as outras, animou-se. Sabia que essa carta poderia ser útil.
Ela virou outra carta, um seis de ouros. Ele recebeu e sorriu. Havia uma esperança em seu olhar. Faltavam cinco cartas e ele precisava que entre elas estivessem um quatro e um sete. Ou ainda um dois e um quatro. Nem pensou em outras possibilidades. Sua atenção estava voltada para a próxima carta.
Ela virou outra carta, um valete de copas. Ele a recebeu e a guardou, não expressando sentimento algum. Ainda estava no jogo, pensou ele.
Outra carta virada, agora um nove de paus. Poderia ser útil, acreditou ele.
A sétima carta foi tirada, um quatro de ouros. Ele sorriu, faltavam três cartas e sabia que na mão dela ainda restavam um às, um dois, um sete, um nove, um dez e um rei. Ou seja, suas chances eram boas de acertar uma carta em seis, nas próximas três viradas de cartas.
Nova carta virada, um nove de espadas. Ele não achou tão mal, poderia fazer um novo emparelhamento com ela. Precisaria apenas de um sete ou de um dois. Continuava vivo no jogo, pensou. Pediu a próxima carta.
Nona carta lançada, um rei de ouros. Agora lhe bateu certo desespero. Havia apenas mais uma carta ao seu dispor e essa precisava ser um sete ou um dois, nenhuma outra. Respirou fundo. Fechou os olhos e pediu a última carta.
Ela virou a décima e última carta. Ele nem quis olhar o resultado. Fechou os olhos e ainda tapou o rosto com suas mãos. Primeiro tirou as mãos do rosto, depois foi abrindo os olhos lentamente. E então encarou sua verdade, a última carta virada era um às de espada. Uma espada, pensou ele, e ainda empunhada por um às, que ironia do destino, um golpe mortal perfeito. Estava perdido. Aceitou a derrota.
Desanimou-se. Ainda assim resolveu apelar. Como era péssimo enxadrista, descartou sugerir o jogo de xadrez, e também porque estava em situação desesperada. Veio então a idéia de outros jogos, menos nobres é verdade. Mas na sua situação qualquer bobagem poderia lhe salvar. Desse desespero foi sugerindo jogo após jogo. E se desanimando conforme o animo dela diante de suas sugestões.
- Jan ken pó?
Ela se manteve séria em sinal de total negação. Ele tinha fé no impossível.
- Porrinha?
Ela nem se deu ao trabalho de olhar em seus olhos. Ele percebeu o seu desdém diante de absurda sugestão. Continuou tentando alguma coisa.
- Dominó? Dama?
Ela se mantinha imóvel e insensível ao seu desespero. Ele nem fez questão de procurar seus olhos para saber o que ela sentia diante de tantos absurdos.
- War, play station, banco imobiliário? Sei lá, par ou impar?
Ela percebeu que aquela situação estava se tornando enfadonha. Apesar de ser paciente queria dar um fim logo aquele jogo de paciência. E também porque sabia que se não tomasse logo uma providência ele viria com uma interminável relação de outros jogos de mesmo naipe.
Olhou para ele e lhe deu uma última chance de vitória. Escolheu para isso a disputa mais simples que conhecia. Tirou uma moeda de prata de sua bolsa.
- Cara ou coroa? – Perguntou ela.
- Coroa. – Respondeu ele, sem nenhuma esperança de vitória.
Ela lançou a moeda para cima. Ele apenas ficou observando sua subida para o alto e descida para o chão, até que esta encontrasse a grama verde.
- Cara, você perdeu de novo. – Disse ela.
Ele agora nada disse. Acatou a decisão enfim.
Derrotado, ele se levantou da grama verde sob o flamboyant e foi andando para o mais longe que pudesse daquele lugar.
Ela sorriu finalmente enquanto recolhia do chão a sua moeda de duas caras.
- OK, vamos jogar? – perguntou ele.
- Se sabe que vai perder por que você quer jogar então? E logo comigo? – respondeu ela sem interesse algum na resposta dele.
- Posso ao menos tentar. – respondeu ele meio desiludido.
- OK, vamos jogar.
Ele animou-se. Viu ali uma chance de ganhar algum tempo. Esse era com certeza o único prêmio que conseguiria caso vencesse.
- Escolha o jogo, eu trago as peças e faço as regras. – Disse ela, lacônica.
- OK, dados.
Então ela tirou de sua bolsa um par de dados comuns. Brancos e com seis faces.
- Você mesmo lança os dados e se a soma desse lançamento obtiver como resultado qualquer valor acima de seis é o vencedor. Caso contrário eu venço. – Ela disse isso, olhou para ele e como este tinha acatado a sua decisão, entregou em suas mãos um par de dados brancos de seis faces.
Ele recebeu os dados e como fazem os jogadores de dados, colocou entre as mãos fechadas, soprou e depois os lançou na grama verde. Estes rolaram pelo chão e pararam a poucos metros deles, em frente ao flamboyant.
Ele viu o resultado do lançamento dos dados. Animou-se. Pensou ter obtido sete, mas quando se aproximou deles, viu que o primeiro dado tinha a face cinco e o outro a face um. Desanimou-se. Então se voltou para ela dominado pela ira no olhar.
- O que foi meu caro? Eu trouxe o jogo que me pediu. Algum problema? Suas chances de ganhar eram boas. Não acha? Em vinte e quatro resultados possíveis, você tinha doze chances de ganhar, a metade das probabilidades. Alguma injustiça?
- Não sei. Houve? Você era a dona dos dados pode ter manipulado o resultado.
- Se assim pensa, escolha outro jogo.
Ele pensou por alguns instantes. Ela não se importava com seu desespero, calada esperava pela próxima opção de jogo. Então ele chegou a uma opção.
- Baralho. Pode ser?
Ela novamente colocou a sua mão dentro de sua bolsa e de lá tirou cartas de baralho. Olhou para ele e disse:
- Jogo mais simples ainda, você terá que completar uma seqüência de cinco cartas seguidas, podendo ser de naipes diferentes. Para não parecer que sou injusta, você terá dez chances de completar sua série de cartas seguidas, isso em um baralho de treze cartas separadas do resto, formando uma seqüência que parte de um às até um reis. Entendeu?
Ele balançou a cabeça em sinal de confirmação. E ela começou então a lançar cartas sobre a grama verde embaixo do flamboyant.
Ela separou do resto do baralho trezes cartas que formavam uma seqüência que iam de um às até um rei. Ele acompanhou a todo esse processo com o olhar atento ao seu movimento. Então pediu a primeira carta. Ela se virou para ele, colocou o baralho na grama verde com suas faces viradas para a grama e então outro jogo começou.
Ela virou a primeira carta, um três de ouros. Ele recebeu a carta e a segurou.
Ela virou a segunda carta, um cinco de paus. Ele recebeu e juntou a primeira carta.
Ela virou mais uma carta, uma dama de espadas. Ele recebeu descontente, sabia que dificilmente conseguiria alguma coisa com essa carta.
Ela virou outra carta, um oito de copas. Ele recebeu a carta, juntou-as as outras, animou-se. Sabia que essa carta poderia ser útil.
Ela virou outra carta, um seis de ouros. Ele recebeu e sorriu. Havia uma esperança em seu olhar. Faltavam cinco cartas e ele precisava que entre elas estivessem um quatro e um sete. Ou ainda um dois e um quatro. Nem pensou em outras possibilidades. Sua atenção estava voltada para a próxima carta.
Ela virou outra carta, um valete de copas. Ele a recebeu e a guardou, não expressando sentimento algum. Ainda estava no jogo, pensou ele.
Outra carta virada, agora um nove de paus. Poderia ser útil, acreditou ele.
A sétima carta foi tirada, um quatro de ouros. Ele sorriu, faltavam três cartas e sabia que na mão dela ainda restavam um às, um dois, um sete, um nove, um dez e um rei. Ou seja, suas chances eram boas de acertar uma carta em seis, nas próximas três viradas de cartas.
Nova carta virada, um nove de espadas. Ele não achou tão mal, poderia fazer um novo emparelhamento com ela. Precisaria apenas de um sete ou de um dois. Continuava vivo no jogo, pensou. Pediu a próxima carta.
Nona carta lançada, um rei de ouros. Agora lhe bateu certo desespero. Havia apenas mais uma carta ao seu dispor e essa precisava ser um sete ou um dois, nenhuma outra. Respirou fundo. Fechou os olhos e pediu a última carta.
Ela virou a décima e última carta. Ele nem quis olhar o resultado. Fechou os olhos e ainda tapou o rosto com suas mãos. Primeiro tirou as mãos do rosto, depois foi abrindo os olhos lentamente. E então encarou sua verdade, a última carta virada era um às de espada. Uma espada, pensou ele, e ainda empunhada por um às, que ironia do destino, um golpe mortal perfeito. Estava perdido. Aceitou a derrota.
Desanimou-se. Ainda assim resolveu apelar. Como era péssimo enxadrista, descartou sugerir o jogo de xadrez, e também porque estava em situação desesperada. Veio então a idéia de outros jogos, menos nobres é verdade. Mas na sua situação qualquer bobagem poderia lhe salvar. Desse desespero foi sugerindo jogo após jogo. E se desanimando conforme o animo dela diante de suas sugestões.
- Jan ken pó?
Ela se manteve séria em sinal de total negação. Ele tinha fé no impossível.
- Porrinha?
Ela nem se deu ao trabalho de olhar em seus olhos. Ele percebeu o seu desdém diante de absurda sugestão. Continuou tentando alguma coisa.
- Dominó? Dama?
Ela se mantinha imóvel e insensível ao seu desespero. Ele nem fez questão de procurar seus olhos para saber o que ela sentia diante de tantos absurdos.
- War, play station, banco imobiliário? Sei lá, par ou impar?
Ela percebeu que aquela situação estava se tornando enfadonha. Apesar de ser paciente queria dar um fim logo aquele jogo de paciência. E também porque sabia que se não tomasse logo uma providência ele viria com uma interminável relação de outros jogos de mesmo naipe.
Olhou para ele e lhe deu uma última chance de vitória. Escolheu para isso a disputa mais simples que conhecia. Tirou uma moeda de prata de sua bolsa.
- Cara ou coroa? – Perguntou ela.
- Coroa. – Respondeu ele, sem nenhuma esperança de vitória.
Ela lançou a moeda para cima. Ele apenas ficou observando sua subida para o alto e descida para o chão, até que esta encontrasse a grama verde.
- Cara, você perdeu de novo. – Disse ela.
Ele agora nada disse. Acatou a decisão enfim.
Derrotado, ele se levantou da grama verde sob o flamboyant e foi andando para o mais longe que pudesse daquele lugar.
Ela sorriu finalmente enquanto recolhia do chão a sua moeda de duas caras.
PARA SEMPRE NOS CAMPOS DE MORANGO
Seu corpo chegou junto com os primeiros raios desse longo dia. O serviço funerário já tinha deixado tudo pronto para a visitação de seus amigos. Ao redor de seu caixão seus parentes lamentavam pela sua partida. Seus dois irmãos choravam copiosamente. Sua mãe era a imagem viva do que é desespero. E seu pai se mantinha no mais completo silêncio. Tanta dor em tão poucos metros de distância. E eu, através das venezianas da janela de minha casa, assistia a tudo isso ainda sob o efeito da sua partida.
Duas da tarde e as horas não voltam. Tudo o que se fez deu em nada e o remédio que se tomou não serviu para a sua cura. Você morre a cada instante diante de meus olhos, ainda tão ao alcance das minhas mãos. Mas agora, estamos na estrada de linhas tortas e curvas perigosas do mundo que é pouco mais que ilha cercada por um mar de esteiras. Agora não há como evitar ou negar que estou perdendo você, meu amigo.
Sua casa se torna pequena para abrigar tanta gente que veio lhe ver pela última vez. Alguns são companheiros que estiveram conosco nos melhores ou nos piores momentos de sua breve existência. Algumas pessoas presentes eu me lembro. Outras, confesso que jamais as vi. Creio que são apenas curiosos. Todos estão ao redor de seu corpo. Todos menos eu. Não consigo ultrapassar a porta de minha casa, atravessar a rua e ir me despedir de você também. Minha tristeza não me permite. Falta coragem, sobra tristeza e solidão.
Meio da noite, o amanhã se aproxima. Seguro sua mão com toda força e fé que tenho na tentativa de evitar o inevitável desfecho. Mas você, até parece sorrir do próprio destino que lhe condenou a viver sempre a toda velocidade. Você me olha como da primeira vez que nos vimos. Uma lágrima de saudade escapa ainda para me acordar que nada mais adianta, perdi você.
Sua mãe vem e fecha seus olhos. Ela diz a todos que eles se abrirão diante de Deus. Seus irmãos jogam flores sobre seu corpo. Choram ao lado de sua mãe. Um silêncio invade a casa e então, seu pai vem e tampa o seu caixão. O serviço funerário chega e leva seu corpo. Em comboio carros se formam e seguem para o seu sepultamento. Mas, foi da janela, meu amigo, por trás das cortinas que eu vi quando você foi embora para sempre da vida de todos.
Andando por aí agora, não está fácil continuar sem você. Volto por onde estivemos. Passo pela rua em que não mora mais. Sinto que tudo mudou e para sempre. Não sei se vivo dentro da baleia ou a baleia é quem vive em mim. Não sei por que continuo caminhando devagar e sempre se sei que a minha dor não vai trazer você de volta. Nem se minhas lágrimas vão mudar o mundo em que estou. Não sei por que, mas continuo sem você e sem mim.
Duas da tarde e as horas não voltam. Tudo o que se fez deu em nada e o remédio que se tomou não serviu para a sua cura. Você morre a cada instante diante de meus olhos, ainda tão ao alcance das minhas mãos. Mas agora, estamos na estrada de linhas tortas e curvas perigosas do mundo que é pouco mais que ilha cercada por um mar de esteiras. Agora não há como evitar ou negar que estou perdendo você, meu amigo.
Sua casa se torna pequena para abrigar tanta gente que veio lhe ver pela última vez. Alguns são companheiros que estiveram conosco nos melhores ou nos piores momentos de sua breve existência. Algumas pessoas presentes eu me lembro. Outras, confesso que jamais as vi. Creio que são apenas curiosos. Todos estão ao redor de seu corpo. Todos menos eu. Não consigo ultrapassar a porta de minha casa, atravessar a rua e ir me despedir de você também. Minha tristeza não me permite. Falta coragem, sobra tristeza e solidão.
Meio da noite, o amanhã se aproxima. Seguro sua mão com toda força e fé que tenho na tentativa de evitar o inevitável desfecho. Mas você, até parece sorrir do próprio destino que lhe condenou a viver sempre a toda velocidade. Você me olha como da primeira vez que nos vimos. Uma lágrima de saudade escapa ainda para me acordar que nada mais adianta, perdi você.
Sua mãe vem e fecha seus olhos. Ela diz a todos que eles se abrirão diante de Deus. Seus irmãos jogam flores sobre seu corpo. Choram ao lado de sua mãe. Um silêncio invade a casa e então, seu pai vem e tampa o seu caixão. O serviço funerário chega e leva seu corpo. Em comboio carros se formam e seguem para o seu sepultamento. Mas, foi da janela, meu amigo, por trás das cortinas que eu vi quando você foi embora para sempre da vida de todos.
Andando por aí agora, não está fácil continuar sem você. Volto por onde estivemos. Passo pela rua em que não mora mais. Sinto que tudo mudou e para sempre. Não sei se vivo dentro da baleia ou a baleia é quem vive em mim. Não sei por que continuo caminhando devagar e sempre se sei que a minha dor não vai trazer você de volta. Nem se minhas lágrimas vão mudar o mundo em que estou. Não sei por que, mas continuo sem você e sem mim.
O SEGUNDO INVERNO – EPISÓDIO I: À BEIRA DO MAR ABERTO
Ele estava olhando para o mar, como quem olha o mar pela primeira vez, encantado. Queria que aquele instante nunca terminasse e que a noite nunca chegasse.
Ela o viu na beira da praia.
Ele estava descalço, de olhos fechado, sentindo o frio da água do mar lhe tocando os pés. Ele sorria. Estava contente por ter chegado até ali. Mas sabia que aquela felicidade toda não duraria para sempre.
Ela foi andando até onde ele se encontrava.
Ele sentiu que sua sorte logo mudaria.
Ela chegou a poucos passos dele. Era fim de tarde, quase noite, hora dos anjos, estes também estavam por perto e ao vê-la se aproximando de onde eles estavam, saudaram-na com um respeitoso aceno de cabeça que se manteve por além do tempo que durou a passagem dela por eles. Ela não respondeu ao aceno deles. Continuou a sua caminhada.
Ele sentiu um aperto no coração e um calafrio que se apossou de todo o seu corpo. Algo de ruim lhe aconteceria. Estava escrito, ele sabia disso.
Ela chegou bem perto dele. A poucos passos. Pronto, agora era só cumprir sua missão.
Ele fechou os olhos no instante em que ela se posicionou bem ao seu lado. Ele a sentiu.
E então ela tentou segurar a sua mão. Mas para sua surpresa ele se virou para ela e como se olhasse para dentro de seus olhos, gritou: - Nãããão!!!!!!
Ela não expressou sentimento algum. Nada lhe abalava. Ficou parada à beira mar. Quieta e solene. Não tinha pressa alguma, sabia que sua missão era inevitável, e também, ninguém consegue fugir por muito tempo de seu destino. E ela era o destino final de todos.
Desesperado ele correu pela areia da praia, tentando se afastar o máximo possível dela.
Ela o observou em sua inútil e infantil fuga. Não era a primeira vez que isso acontecia em uma de suas missões. Certamente não seria a última. Permitiu que ele se afastasse um pouco. Deu-lhe alguma vantagem e alguma esperança de que conseguiria dela se livrar.
Instantes depois ela o seguiu. E mais tarde o alcançou.
Ela o viu na beira da praia.
Ele estava descalço, de olhos fechado, sentindo o frio da água do mar lhe tocando os pés. Ele sorria. Estava contente por ter chegado até ali. Mas sabia que aquela felicidade toda não duraria para sempre.
Ela foi andando até onde ele se encontrava.
Ele sentiu que sua sorte logo mudaria.
Ela chegou a poucos passos dele. Era fim de tarde, quase noite, hora dos anjos, estes também estavam por perto e ao vê-la se aproximando de onde eles estavam, saudaram-na com um respeitoso aceno de cabeça que se manteve por além do tempo que durou a passagem dela por eles. Ela não respondeu ao aceno deles. Continuou a sua caminhada.
Ele sentiu um aperto no coração e um calafrio que se apossou de todo o seu corpo. Algo de ruim lhe aconteceria. Estava escrito, ele sabia disso.
Ela chegou bem perto dele. A poucos passos. Pronto, agora era só cumprir sua missão.
Ele fechou os olhos no instante em que ela se posicionou bem ao seu lado. Ele a sentiu.
E então ela tentou segurar a sua mão. Mas para sua surpresa ele se virou para ela e como se olhasse para dentro de seus olhos, gritou: - Nãããão!!!!!!
Ela não expressou sentimento algum. Nada lhe abalava. Ficou parada à beira mar. Quieta e solene. Não tinha pressa alguma, sabia que sua missão era inevitável, e também, ninguém consegue fugir por muito tempo de seu destino. E ela era o destino final de todos.
Desesperado ele correu pela areia da praia, tentando se afastar o máximo possível dela.
Ela o observou em sua inútil e infantil fuga. Não era a primeira vez que isso acontecia em uma de suas missões. Certamente não seria a última. Permitiu que ele se afastasse um pouco. Deu-lhe alguma vantagem e alguma esperança de que conseguiria dela se livrar.
Instantes depois ela o seguiu. E mais tarde o alcançou.
DONA ADELAIDE E AS LINHAS CRUZADAS
Dizem que as linhas paralelas se encontram no infinito e que as linhas cruzadas só se encontram por uma brincadeira do destino.
Dona Adelaide é uma viúva que mora em um prédio antigo, quase centenário. E como todo edifício desse porte, tem sérios problemas de infiltração, eletricidade e, principalmente, linhas telefônicas que vivem em constante caos. O que provoca o inevitável cruzamento de ligações. Ela se mudou para lá depois que seu marido morrera, os filhos cresceram e a antiga casa ficou grande demais para ela e sua pouca mobília. Sua tevê pifou já faz algum tempo e sua única diversão é ficar ao telefone, sempre atenta aos movimentos dos seus vizinhos. Vizinhos esses que ela, aliás, por se reservar a calma de seu apartamento, quase nunca os encontra pelos corredores do prédio. No entanto, as linhas cruzadas sempre lhe permitem conhecê-los um pouco melhor.
Algumas ligações lhe provocam risos.
“Mano” “Fala” “Avisa ai em casa que vou chegar mais tarde” “Vai matar aula de novo, hein?” “Não, eu vou estudar na casa de uns colegas” “Sei” “É sério” “Me engana que eu gosto!” “Avisa?” “O que ganho com isso?” “Você não faz nada de graça” “Blá, blá, blá” “Avisa?” “Tá bom, mas você fica me devendo mais essa” “Deixa comigo” “...”
Outras lhe lembram apenas das necessidades de sua despensa.
“Alô, é do supermercado?” “É sim, freguesa. O que vai querer” “Vocês podem mandar aqui pro 102 um garrafão de água mineral?” “Com certeza freguesa. Mais alguma coisa?” “Não, só isso mesmo” “Certo” “Não demore, por favor” “Tudo bem, chega já” “Obrigada” “...”
Há algumas que ligações que lhe provocam surpresa e nojo.
“Oi bem, teu marido quando vem?” “Chega só amanhã” “Posso ir ai agora?” “Pra que?” “Tô com saudade, não posso?” “Então vem” “Não demoro” “Tô chegando, meu bem” “Ainda tá aí?” “Beijos” “Só quando você chegar” “Tô morrendo de desejo” “Eu também” “Chega logo” “Tá” “...”
E outras lembram que nem tudo é tão perfeito assim.
“Alô, mãe” “Filha? É você?” “Mãe, sou eu” “Filha, o que foi que houve?” “Mãe, tô voltando” “Voltando filha, por quê? Diz o que houve” “Mãe, ele foi embora com outra... E eu tô tão sozinha querendo colo de mãe...” “Filha, fica calma” “Mãe... Onde foi que eu errei?” “Mas vocês pareciam tão bem” “Só fachada, mãe, ele já não me amava” “Oh filha, lamento, mas eu sempre disse que ele não prestava. Coração de mãe não se engana. Eu lhe disse” “Mãe, deixa pra lá...” “Chora não filha, homem nenhum merece seu choro, quanto mais aquele sem vergonha” “Mãe, posso voltar?” “Por mim você nunca teria partido” “Sua benção minha mãe” “Deus lhe abençoe, minha filha” “Tá” “...”
No entanto o que mais entristece dona Adelaide é que, desde que ela se mudou para esse prédio, nenhuma ligação sequer falou dela. E pior, nenhuma ligação chegou para ela, nem mesmo por engano. Como se ela sequer existisse.
Hoje, no entanto, ela preferiu nem acordar. Ficou deitada no frio da cama, esperando mais um dia passar despercebido. Talvez desejando sonhar com outros tempos. O que, aliás, não aconteceu.
Dona Adelaide é uma viúva que mora em um prédio antigo, quase centenário. E como todo edifício desse porte, tem sérios problemas de infiltração, eletricidade e, principalmente, linhas telefônicas que vivem em constante caos. O que provoca o inevitável cruzamento de ligações. Ela se mudou para lá depois que seu marido morrera, os filhos cresceram e a antiga casa ficou grande demais para ela e sua pouca mobília. Sua tevê pifou já faz algum tempo e sua única diversão é ficar ao telefone, sempre atenta aos movimentos dos seus vizinhos. Vizinhos esses que ela, aliás, por se reservar a calma de seu apartamento, quase nunca os encontra pelos corredores do prédio. No entanto, as linhas cruzadas sempre lhe permitem conhecê-los um pouco melhor.
Algumas ligações lhe provocam risos.
“Mano” “Fala” “Avisa ai em casa que vou chegar mais tarde” “Vai matar aula de novo, hein?” “Não, eu vou estudar na casa de uns colegas” “Sei” “É sério” “Me engana que eu gosto!” “Avisa?” “O que ganho com isso?” “Você não faz nada de graça” “Blá, blá, blá” “Avisa?” “Tá bom, mas você fica me devendo mais essa” “Deixa comigo” “...”
Outras lhe lembram apenas das necessidades de sua despensa.
“Alô, é do supermercado?” “É sim, freguesa. O que vai querer” “Vocês podem mandar aqui pro 102 um garrafão de água mineral?” “Com certeza freguesa. Mais alguma coisa?” “Não, só isso mesmo” “Certo” “Não demore, por favor” “Tudo bem, chega já” “Obrigada” “...”
Há algumas que ligações que lhe provocam surpresa e nojo.
“Oi bem, teu marido quando vem?” “Chega só amanhã” “Posso ir ai agora?” “Pra que?” “Tô com saudade, não posso?” “Então vem” “Não demoro” “Tô chegando, meu bem” “Ainda tá aí?” “Beijos” “Só quando você chegar” “Tô morrendo de desejo” “Eu também” “Chega logo” “Tá” “...”
E outras lembram que nem tudo é tão perfeito assim.
“Alô, mãe” “Filha? É você?” “Mãe, sou eu” “Filha, o que foi que houve?” “Mãe, tô voltando” “Voltando filha, por quê? Diz o que houve” “Mãe, ele foi embora com outra... E eu tô tão sozinha querendo colo de mãe...” “Filha, fica calma” “Mãe... Onde foi que eu errei?” “Mas vocês pareciam tão bem” “Só fachada, mãe, ele já não me amava” “Oh filha, lamento, mas eu sempre disse que ele não prestava. Coração de mãe não se engana. Eu lhe disse” “Mãe, deixa pra lá...” “Chora não filha, homem nenhum merece seu choro, quanto mais aquele sem vergonha” “Mãe, posso voltar?” “Por mim você nunca teria partido” “Sua benção minha mãe” “Deus lhe abençoe, minha filha” “Tá” “...”
No entanto o que mais entristece dona Adelaide é que, desde que ela se mudou para esse prédio, nenhuma ligação sequer falou dela. E pior, nenhuma ligação chegou para ela, nem mesmo por engano. Como se ela sequer existisse.
Hoje, no entanto, ela preferiu nem acordar. Ficou deitada no frio da cama, esperando mais um dia passar despercebido. Talvez desejando sonhar com outros tempos. O que, aliás, não aconteceu.
Zine dedicado EXCLUSIVAMENTE a
Isabel Muniz, Lucas Neto, Nadia Camurça,
David Alexandre, Andre Couto e Leonardo Freitas, porque o amor em algum instante passou por aqui, ficou um tantinho de nada, mudou um bocadinho de tudo e depois, depois se foi. Ou não.
Send me news email: calving@bol.com.br; orkut: Claudio Alving, o cara de vermelho;
Isabel Muniz, Lucas Neto, Nadia Camurça,
David Alexandre, Andre Couto e Leonardo Freitas, porque o amor em algum instante passou por aqui, ficou um tantinho de nada, mudou um bocadinho de tudo e depois, depois se foi. Ou não.
Send me news email: calving@bol.com.br; orkut: Claudio Alving, o cara de vermelho;
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